Minha vida não tem nada a ver com a de Virginia Fonseca… ou será que tem?

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Se alguém me dissesse, alguns anos atrás, que eu escreveria um texto tentando encontrar pontos em comum entre a minha vida e a de Virginia Fonseca, eu provavelmente teria rido. A vida dela parece tão distante da minha, com filhos, empresas, viagens e uma estrutura que eu não tenho. Mas, ultimamente, eu tenho me pegado pensando: será que, apesar de tudo ser tão diferente, existem sentimentos que aproximam mães tão distintas? Eu sou uma mãe tentando voltar a cuidar de mim, entre filhos, casa e a saudade da mulher que eu era. E, de algum jeito, isso não tem tanto a ver com fama ou dinheiro, mas com uma vontade muito humana de não se perder de si mesma.

Eu não tenho a estrutura ou a rotina da Virginia, e nem preciso ter. O problema é que a gente vive em uma época em que comparar virou quase automático. A gente olha para uma mulher nas redes sociais e pensa: “Como ela consegue fazer tudo isso?”. Ela treina, cuida dos filhos, trabalha, viaja, empreende, cuida da alimentação… E logo vem a explicação: “É porque ela tem babá”, “é porque tem empregada”, “é porque tem personal”, “é porque os filhos têm uma ótima estrutura”. E talvez algumas dessas coisas realmente façam parte da realidade dela. Mas existe uma pergunta que eu acho muito mais importante: o que eu consigo fazer dentro da minha própria realidade?

Porque existe uma diferença enorme entre se inspirar em alguém e usar a vida daquela pessoa como régua para medir a nossa. E, principalmente depois que me tornei mãe, comecei a perceber o quanto essa comparação pode ser cruel. A gente olha para os dez por cento que uma pessoa escolhe mostrar na internet e compara com os cem por cento da nossa própria vida. Eu vejo a minha casa inteira, conheço a minha rotina inteira, sei dos dias bons e dos dias difíceis, sei quando estou cansada, quando as meninas precisam de mim, quando não consegui fazer tudo o que queria. Eu conheço os meus cem por cento. Da vida que aparece na internet, eu conheço apenas aquilo que chegou até mim.

E isso vale para qualquer mulher que a gente admira nas redes sociais. Pode ser a Virginia, uma blogueira de quem você gosta, uma influenciadora fitness ou até aquela mãe que parece ter uma rotina perfeita no Instagram. Nós vemos a foto bonita, o treino pronto, a comida saudável, a casa organizada, os filhos arrumados e o trabalho acontecendo. Mas não vemos necessariamente tudo o que existe por trás daquela imagem. E também não precisamos diminuir o esforço de ninguém para reconhecer que cada pessoa possui condições, recursos, prioridades e desafios diferentes.

Foi pensando nisso que comecei a olhar para a minha própria vida de outra maneira. Depois de duas gestações, com três anos de diferença entre elas, meu corpo mudou. Minha rotina mudou. Eu mudei. E durante muito tempo talvez eu tenha olhado para trás querendo reencontrar a mulher que eu era antes dos filhos. Só que o tempo passa, e não existe uma máquina capaz de nos levar de volta exatamente para aquele momento. Então comecei a pensar: e se, em vez de tentar voltar exatamente para quem eu era, eu começasse a construir quem eu quero ser daqui para frente?

Hoje, por exemplo, eu consegui procurar acompanhamento com uma nutróloga e estou começando novamente a fazer exercícios físicos. No momento, a minha realidade permite que eu faça isso duas vezes por semana. E sabe de uma coisa? Duas vezes por semana já é alguma coisa. Talvez, para outra mulher, sejam cinco vezes, para outra, três. Para outra, uma caminhada de vinte minutos. E talvez exista uma mãe lendo este texto que ainda não consegue fazer nada disso porque está vivendo uma fase em que os filhos precisam de praticamente toda a sua energia.

E tudo bem. Acho que uma das coisas mais importantes que nós, mulheres e mães, precisamos aprender é que começar pequeno não significa pensar pequeno.

Eu não preciso esperar ter a rotina perfeita, o dinheiro perfeito, a casa perfeita, o corpo perfeito ou uma quantidade enorme de tempo disponível para começar a cuidar de mim. Eu posso começar com o que tenho hoje e essa talvez seja uma das maiores diferenças entre inspiração e comparação. A inspiração olha para outra pessoa e pergunta: “O que posso aprender com isso?”. A comparação olha e pergunta: “Por que eu não consigo ser assim?”.

A primeira pergunta pode nos fazer crescer. A segunda pode nos fazer sofrer e existe também uma questão financeira que não podemos ignorar. Nem todas as mulheres têm as mesmas possibilidades. Algumas conseguem pagar academia, personal, nutricionista, procedimentos estéticos, ajuda para cuidar da casa ou dos filhos. Outras precisam fazer escolhas muito mais apertadas todos os meses. Fingir que essas diferenças não existem seria desonesto.

Mas reconhecer nossas limitações financeiras não precisa significar desistir dos nossos sonhos. Talvez eu não consiga fazer tudo agora. Talvez eu precise adaptar. Talvez precise esperar. Talvez precise começar de uma maneira diferente da que eu imaginei, mas ainda posso dar um pequeno passo. E é nos pequenos momentos que eu também tenho começado a perceber que cuidar de mim não precisa ser uma coisa grandiosa. Às vezes, é conseguir tomar um banho mais demorado quando as meninas já estão dormindo. É pegar um livro e ler algumas páginas em vez de passar mais uma hora rolando o feed do Instagram. É conseguir parar um pouquinho, respirar e ter alguns minutos que sejam só meus.

Confesso que nem sempre consigo. Muitas vezes, quando as meninas finalmente dormem, eu me pego presa no celular, procrastinando, passando de um vídeo para outro, como se aquele fosse o único momento do dia em que eu pudesse simplesmente não fazer nada e eu entendo esse sentimento. Tem noites em que estou tão cansada que parece até que ficar ali no celular é a única forma de descansar. Principalmente quando minha filha passa a noite acordando, mamando e precisando de mim. Mas também tenho percebido o preço que isso cobra no dia seguinte.

Eu já sei que, se além do cansaço da maternidade eu ainda dormir tarde por ficar presa nas redes sociais, o dia seguinte vai ser muito mais pesado. Vou estar mais cansada, mais esgotada mentalmente e, muitas vezes, com menos disposição para cuidar de mim, das meninas e da minha casa. Então estou tentando aprender a fazer escolhas pequenas, sem transformar isso em mais uma cobrança.

Nem sempre vou conseguir fechar o celular, pegar um livro ou tomar aquele banho relaxante. Mas, quando consigo, percebo que esses poucos minutos podem fazer uma diferença enorme na maneira como eu me sinto e talvez seja justamente isso que eu esteja aprendendo nessa nova fase: cuidar de mim não precisa ser mais uma obrigação na minha lista. Pode ser uma forma de me lembrar de que eu também existo.

Não quero transformar a minha vida em uma corrida contra o tempo ou em uma busca pelo corpo que eu tinha antes dos filhos.

Quero voltar a me movimentar. Quero cuidar melhor da minha alimentação. Quero olhar para a minha saúde com mais atenção. Quero me sentir bonita novamente. Quero ter momentos para mim. Quero continuar sendo uma mãe presente, mas sem acreditar que ser uma boa mãe significa desaparecer completamente dentro da maternidade.

E talvez seja aqui que a minha vida encontre, de alguma maneira, um ponto de contato com aquilo que vejo nas redes sociais.

Não porque a minha vida seja igual à da Virginia. Não é.

Não porque eu tenha a mesma estrutura, as mesmas oportunidades ou a mesma rotina. Também não tenho.

Mas porque, no final das contas, existe uma mulher por trás da mãe. E talvez essa mulher também precise ser lembrada.

A maternidade pode ocupar quase todos os espaços da nossa vida. São filhos, casa, comida, escola, banho, roupa, trabalho, preocupações, noites maldormidas e uma lista que parece nunca terminar.

E, quando percebemos, passamos tanto tempo cuidando de todo mundo que começamos a acreditar que cuidar de nós mesmas é egoísmo.

Não é.

Cuidar de mim não significa deixar minhas filhas de lado. Significa também mostrar para elas que uma mulher pode amar profundamente seus filhos e, ao mesmo tempo, reconhecer que possui sonhos, necessidades e desejos próprios.

Por isso, hoje eu tento olhar menos para aquilo que outras mulheres conseguem fazer e mais para aquilo que eu consigo fazer.

Se eu consigo treinar duas vezes por semana, vou começar duas vezes.

Se em algum momento eu conseguir três, ótimo.

Se tiver uma semana em que não conseguir nenhuma, eu não quero transformar isso em motivo para desistir.

Quero aprender a recomeçar.

Porque talvez a vida não seja sobre conseguir manter uma rotina perfeita. Talvez seja sobre conseguir voltar para ela quando a vida nos tira do caminho.

E eu também quero deixar uma coisa para a mãe que está lendo este texto: não use a vida de outra mulher como prova de que você está atrasada.

Você não sabe quais são os 90% que ela não mostra.

Você conhece os seus 100%.

Você conhece as suas noites maldormidas. Conhece as contas que precisa pagar. Conhece as necessidades dos seus filhos. Conhece a sua casa. Conhece o seu cansaço. Conhece os seus medos e sabe quais são as possibilidades que você tem hoje.

Então olhe para a sua realidade antes de olhar para a realidade de outra pessoa.

Pergunte a si mesma:

  • O que cabe na minha vida hoje?
  • O que eu posso fazer por mim com o tempo que tenho?
  • O que posso fazer pela minha saúde?
  • O que posso fazer pelas minhas filhas?
  • O que posso fazer pela minha casa?
  • O que posso fazer pela mulher que existe além da mãe?

Talvez a resposta hoje seja pequena. E tudo bem, porque pequenos passos continuam sendo passos. O tempo que passou eu não consigo mudar. As duas gestações já aconteceram. Meu corpo mudou. Minhas filhas cresceram. Eu também mudei.

Talvez eu nunca volte exatamente para a mulher que eu era antes dos filhos. E, pensando bem, talvez eu nem precise.

Talvez exista uma nova versão de mim esperando para ser construída. Uma mulher que conhece melhor os próprios limites, que entende suas prioridades, que sabe que não precisa fazer tudo de uma vez e que aprendeu que cuidar de si não precisa significar abandonar ninguém.

Eu não sei exatamente como vou estar daqui a um ano, mas sei que quero chegar lá tendo começado. Quero olhar para trás e perceber que, mesmo com pouco tempo, mesmo cansada, mesmo com todas as dificuldades, eu dei pequenos passos na direção da mulher que eu quero ser. E talvez seja isso que eu tenha em comum com tantas outras mães — inclusive com aquelas que parecem viver uma realidade completamente diferente da minha.

Todas nós estamos tentando fazer o melhor que conseguimos com a vida que temos.

E, para mim, cuidar de mim novamente começa assim: sem pressa, sem perfeição e sem comparação.

Um passo de cada vez.


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